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Viagem SÃo Miguel Arcanjo – Iguape

Agosto de 2007

Mais uma viagem de bicicleta por roteiros de peregrinação. Dessa vez fui conhecer um percurso muito utilizado pelos romeiros da região do Vale do Ribeira. O trajeto se inicia na cidade de São Miguel Arcanjo, sudeste do estado de São Paulo e segue até a cidade de Iguape, litoral sul do estado. O grande fluxo de peregrinos nesse trajeto ocorre no início do mês de agosto, devido a festa do Bom Jesus de Iguape que ocorre no dia 5 de agosto.

Todos os peregrinos da região seguem até a estrada Nequinho da Fogaça que começa no trevo de São Miguel, passa por dentro do Parque Estadual Carlos Botelho, trecho onde a estrada é de terra, e vai até a cidade de Registro, passando por 7 Barras.

Iluminado pela Aurora

Depois de Registro, o ciclista tem duas opções, a primeira é seguir para Iguape via a rodovia de asfalto, uma distância de aproximadamente, 100km. A segunda opção é seguir por uma estrada de terra que beira o rio Ribeira do Iguape. Por esse trecho a distância é de pouco mais de 70km, e devido as boas condições dessa pista, é aconselhável que o ciclista opte por essa opção, o que lhe deixara em maior contato com a natureza e o mais longe possível dos carros.

Essa é uma viagem curta e híbrida, onde enfrentaríamos tanto trechos longos de asfalto como de estradas de terra. Por isso optei por preparar uma bicicleta que tivesse um desempenho razoável nas duas situações. Como pretendo fazer o Caminho da Fé novamente nesse ano, tive a idéia de preparar uma bicicleta para esse fim. Testei então uma Caloi Elite 2.7, que com umas pequenas adaptações, respondeu bem a todas as dificuldades do trajeto. Clique aqui para conferir a matéria "Como preparar uma Bicicleta para cicloturismo na terra".

Bicicleta Caloi Elite adaptada para Cicloviagem

Saímos da cidade de São Miguel Arcanjo as 6 da manhã com o objetivo de chegar na cidade de Registro, mas totalmente preparados para encurtar a viagem, caso não conseguíssemos vencer essa empreitada.

Fomos em cinco ciclistas, eu (André,33), Paulo de 20 anos, o Juliano de 12, Ricardo de 25 e o Adão de 52 anos. Apenas eu e o Adão tínhamos experiência em cicloviagens, o Paulo que pesa 120 quilos, aproveitou a sua juventude para tentar vencer o trajeto. O Juliano, caçula da turma, encarava sua primeira cicloviagem, apenas com experiência de pedalar nas cercanias de São Miguel, cidade onde mora. O Ricardo, também com quase 100 quilos, sempre fez bastante atividade física mas nunca uma viagem como essa, já o Adão, já havia, inclusive, percorrido esse caminho, tanto a pé, como de bicicleta.

Ridardo, Paulo, Juliano, Adão e André
Da esquerda para direita: Ricardo, Paulo, Juliano, Adão e André.

Um dos principais motivos de realizar essa viagem era para provar que qualquer pessoa, com ou sem condicionamento físico pode realizar uma viagem de bicicleta. O que faria a diferença seria o nível de dificuldade e a experiência do grupo. Um cicloturista experiente sabe que forçar demais o ritmo além do que uma pessoa com pouca prática possa suportar, pode arruinar a viagem de todos.

De São Miguel Arcanjo até Registro, estimava uma distância de 100 quilômetros. O objetivo era chegar em Registro, mas dependendo da condição do pessoal, ficaríamos em 7 barras. Foram aproximadamente 25 km de São Miguel até a entrada do Parque Carlos Botelho. Trecho com um relevo razoável, sem grandes desníveis.

Entrada do Parque Carlos Botelho

Entramos no parque e para nossa surpresa, apesar da terra, a estrada tinha excelentes condições. Tanto é que os motoristas, mesmo com as placas indicando a velocidade máxima de 30 e 40 km/h, eram poucos que respeitavam esse limite. Muitos nem se davam ao trabalho de reduzir a velocidade ao se aproximar de nós, para evitar um acidente, ou mesmo para não levantar muita poeira.

Entrada do Parque Carlos Botelho

São 35km de estrada de terra, e pedalamos aproximadamente 25 quilômetros com aclives e declives de, no máximo, 100 metros de diferença. Nada muito pesado como o Caminho da Fé, mas também sem muitos trechos planos. Estávamos bem no meio da Serra da Macaca, como é conhecida na região. Infelizmente não conseguimos ver um animal sequer, muito provavelmente devido aos caminhões que trabalhavam nas diversas obras na pista, e a grande quantidade de carros que a usam como ligação do litoral sul de São Paulo com a região alta do Vale do Ribeira.

Aliás essas obras de reforço na pista, são devido as enormes carretas que usavam essa serra para vir da região Sul do Brasil até Sorocaba. Hoje, felizmente, apenas veículos de até 8 toneladas podem passar pelo parque. Eu particularmente acho que nem carros deveriam cruzar o parque, ficando apenas para pedestres e ciclistas. Assim as chances de vermos animais na pista seriam bem maiores.

Mensagem

Atingimos a altitude máxima de 820 metros e só depois de uns 24 quilômetros de terra é que temos um longo trecho de descida, pouco mais de 10 quilômetros. Não existe nenhum trecho muito complicado, tanto é que na minha avaliação, se tivéssemos que subir pedalando, seria relativamente tranqüilo, uma subida longa com inclinação de apenas 4%.

O parque inteiro possue uma bela infraestrutura, dentro dele encontramos diversos pontos de apoio cobertos, alguns até com forno a lenha para “esquentar uma marmita”. Outra particularidade é a quantidade de cestos de lixo dentro do parque. Até nas trilhas ao lado das cachoeiras encontrei tambores de lixo, com saco e tampa. Vi muito pouca sujeira mas cheguei a ver algumas coisas jogadas no chão. A maioria do lixo que eu vi, provavelmente foi atirado pelos motoristas em suas belas e “limpas” máquinas.

Abrigo para os peregrinos
Abrigo com fogão a lenha usado pelos peregrinos.

Chegamos na segunda portaria do parque que também é muito bem estruturada. Existem uma construção com cobertura, cozinhas e banheiros, onde os peregrinos podem passar a noite com toda infraestrutura e segurança necessárias, já que da entrada do parque até o vilarejo mais próximo, são quase 15 km. O parque é um exemplo de cuidado e organização, a única coisa negativa foi o excesso de carros que por lá passam. Com certeza foi isso que impossibilitou avistarmos animais, conforme disse anteriormente.

Tudo bem que proibir totalmente pode ser um pouco pesado, mas limitar a quantidade de carros, é algo a se pensar. Como a coisa mais difícil que existe nesse país é pedir para os motoristas respeitarem placas de trânsito, se eles permitissem apenas um “x” número de carros simultaneamente dentro do parque, já inibiria o seu uso já que poucas pessoas iriam se sujeitar a ficar horas na entrada do parque esperando sua vez.

Saindo da portaria, não pedalamos nem 1 km e já chegamos no asfalto. Esse trecho até 7 barras foi muito tranqüilo, a pista era pouquíssimo movimentada e poucos aclives, o que nos ajudou a mantermos uma média razoável.

Chão liso

Passamos pela primeira vez pelo rio Ribeira do Iguape. Graças a depredação do homem, hoje o rio se encontra muito assoreado sem praticamente nada de mata ciliar. Segundo o Adão, a 20 anos atrás, o rio nesse ponto era navegável e possível ir de balsa, até o mar. Hoje, nesse ponto a profundidade é de centímetros e ate uma voadeira corre sério risco de encalhar no rio.

O assoreado e maltratado Ribeira do Iguape
O assoreado e maltratado Ribeira do Iguape

Depois do parque, a altitude ficou em torno de 40 metros. Pouco antes de 7 barras, há uma pequena serra onde subimos para 100 metros novamente. Foi onde o Paulo e o Juliano sofreram um pouco e tiveram que apelar para o “push-bike” (push = empurrar). Vencemos a serrinha e já estávamos em perímetro urbano.

Como haviam bicicletas nas ruas e aqui, como em muitos lugares do país, a bicicleta é transporte coletivo também. Avistei na minha frente um ciclista carregando sua mulher na garupa, que carregava um bebê que devia ter a mesma idade do meu filho, uns 11 meses. Nem preciso falar que bateu uma inveja tremenda.

Sete Barras é uma cidade bem pequena, com pouca infraestrutura e bem menor do que Registro que estava a quase 20 quilômetros a nossa frente. Eram 15:00, paramos para um descanso e para conferir se a galera estava a fim de continuar. O Paulo que estava sentindo mais, disse que agüentava tocar, então procuramos um lugar que vendia água para enchermos nossas garrafinhas. Não cometam o mesmo erro que cometi, água também tem validade e a que comprei estava vencida a dois anos. Ainda bem que nada de mais grave aconteceu.

E estrada de Sete Barras para Registro tem um asfalto muito bom, não tem acostamento e tem muitos ciclistas na estrada, muito mais do que carros, por incrível que pareça. Infelizmente, muitos pedalam na contra-mão por uma falsa sensação de segurança. Não duvido que muitos o façam por conselhos de motoristas, isso já aconteceu até comigo. Só o fato de construir um acostamento nessa via já salvaria milhares de vidas. Já os carros, alguns iam para a outra faixa para nos ultrapassar, outros competiam para ver aquele que tirava a maior fina da gente, mas todos, sem exceção, sequer se deu ao trabalho de tirar o pé do acelerador (como diz a lei: Arts, 201 e 220) ao nos ultrapassar.

Haja Bananas

Faltavam poucos quilômetros e o Paulo travou geral, não tinha forças nem mais pra pedalar na reta. Então eu voltei e como o trajeto era bem plano, amarrei uma cordinha e dei um belo puxão nele. Conseguimos pedalar até a entrada da cidade. Depois mais surpresas, a enorme quantidade de ciclistas. Crianças que claramente estavam indo ou voltando da escola, bicicletas coletivas com um adulto e até 3 crianças, tudo lindo e apesar da enorme quantidade de ciclista, nada de ciclovias ou ciclofaixas, como sempre os senhores motorizados tinham todos os direitos enquanto aos ciclistas só clandestinidade.

Até quando a bicicleta, o meio de locomoção mais inteligente e eficiente já inventado vai ser discriminado dessa maneira no Brasil?

Chegamos em Registro e paramos na primeira padaria para comer. O Adão já estava quase caindo pois não comeu praticamente nada durante toda a viagem. No final o Paulo conseguiu se recuperar, o Juliano estava bem firme e o Ricardão, nem parecia que tinha pedalado 100 km. Tudo isso gerou uma boa perspectiva para o dia seguinte.

Café da tarde

Ficamos num hotel no centro, bem próximo ao rio Ribeira do Iguape, que iríamos beirar no dia seguinte até a cidade de Iguape. Hotel Regis, custo médio de 30 reais por cabeça com excelente café da manhã, tudo que precisávamos para recuperar as energias para o dia seguinte.

Segundo dia, Registro – Iguape.


Na beira do Ribeira do Iguape

Começo do dia, nos despedimos de Registro ao lado do Ribeira, seguimos pela calçada (proibida para bicicletas, mas passam mais ciclistas que pedestres no local), passamos por de baixo da BR e nos dirigimos em direção a uma pista de terra que fica do outro lado do rio. Fácil acesso e lá estávamos seguindo em direção de Iguape.

Ao lado da Castelo, no acesso a estrada para Iguape

Perspectiva de uns 70 km de terra totalmente plano. Garoava um pouco de manhã, mas a terra firme e batida deixava a gente desenvolver uma velocidade média de 15 km/h com picos de até 25 km/h sem muito esforço.

Sem mata siliar, erosão e assoreamento

Hora beirávamos o Rio Ribeira e hora apenas mato e algumas plantações de banana. Muitos trechos sem Mata ciliar para proteger o rio, alguns trechos com erosão. Outra particularidade são os barrancos a metros de distância em direção oposta ao rio. Prova que aquela estrada não existia pois estava submersa. Não quero nem imaginar como ficará esse rio depois da construção de duas usinas que estão no aguardo de licença ambiental no Ribeira. Com certeza todo o ecossistema do local será prejudicado, o rio perdendo ainda mais sua vazão, comprometerá diretamente todos os manguezais da região.

Barranco formado pelo antigo leito do rio
Aquele barranco ao fundo, foi formado pelo antigo leito do Rio Ribeira do Iguape

Mais ou menos o que ocorreu na construção da barragem de Sobradinho no Rio São Francisco. Anteriormente a barragem, a água doce do rio invadia o mar por quase 15 quilômetros. Depois, o mar tomou conta de tudo, fazendo com que as populações que viviam na foz do Velho Chico tivessem que abandonar casas e tudo mais.

Nessa estrada de terra, vimos diversos búfalos. Alguns bastante curiosos mas a maioria medrosos, engraçado era ve-los se espremendo entre a cerca e a estrada tentando passar longe da gente.

Os Bufalos com medo de outro, de vermelho

Faltando 10 km para o fim da terra, passamos por um vilarejo onde havia um posto com a campanha de vacinação contra a pólio. Adorei ver um monte de criancinhas, muitas bem vestidas, pouco se importando com a quantidade de terra e poeira que ficam constantemente no ar. O mais legal for ver que a maioria foi trazida pelos seus pais, de bicicleta.

Posto de Saúde e principal meio de transporte

Mais pedal em terra e finalmente chegamos ao asfalto. Mais uma vez a injustiça social prevaleceu, pois pedalamos uns 15 km até chegarmos ao perímetro urbano da cidade dividindo espaço com os carros na estrada. Apenas na via principal, colocaram umas tartarugas no acostamento a chamaram de ciclovia. Uma tremenda falta de respeito ao principal meio de locomoção da cidade. Mesmo havendo muito mais ciclistas do que motoristas, apenas os motorizados tem regalias. Estacionamento farto, pistas largas, nenhuma fiscalização para poderem acelerar livremente...

Chegamos em Iguape, uma parada pra uma água de coco, uma benção na igreja e seguimos para a Ilha Comprida atravessando a ponte. Do outro lado da ponte, já em Ilha Comprida, há uma estreita ciclovia com umas tartarugas separando o ciclista da via de carros, portanto caso você queira ultrapassar um ciclista em velocidade mais baixa, muito cuidado, não vi nenhum carro abusando da velocidade nesse trecho, mas não é bom arriscar.

Ciclovia perigosa chegando em Ilha Comprida

Passando pelo portal ruas largas, longas e tranqüilas. Chegamos na orla, curtimos um pouco a brisa do mar e pedalamos até a casa em que ficaríamos. Saldo da viagem, 180 km pedalados em dois dias, sendo mais de 100 km em estrada de terra. A viagem em si é bem tranqüila, com baixo nível de dificuldade. Altamente recomendável para qualquer ciclista, principalmente para aqueles que estão iniciando no cicloturismo. Poucos carros, muita natureza e muitas, mas muitas bicicletas, com certeza o ciclista verá mais bicicletas do que carros nessa viagem, o que seria bem melhor se fosse assim também no nosso dia a dia.

André Pasqualini

Veja o album com todas as fotos da viagem

Tracks para GPS da viagem (formato trackmaker)

Arquivo kml para ver o trajeto no Google Earth


Veja a rota no Bikely

Veja a altimetria do percurso