 |
Povo de São Paulo, jamais cause trânsito, senão a CET manda a conta
25/03/2009
Muitos já devem saber que eu participei da edição do World Naked Bike Ride do ano passado (2008) e fui o único pelado detido. Detalhes sobre tudo que ocorreu na edição passada do WNBR você encontra aqui.
No dia 17 de fevereiro recebi uma ligação de alguém da CET, pedindo o meu email, pois precisavam mandar algo para mim. Passei o email pois achava que finalmente me encaminhariam os dados com os acidentes fatais envolvendo ciclistas de 2007 e 2008, para continuar meu trabalho de sinalização dos pontos mais perigosos da cidade.
No dia seguinte, recebi um email com o assunto: “Passeio Ciclistico- Av. Pta,e outros - World Naked Bike Ride (Clandestino)”. Abri o email que parecia um formulário, na solicitação estava escrito: “Passeio Ciclistico Clandestino”. Quem solicita uma autorização para um Passeio Ciclístico Clandestino? Pior era o que estava escrito no Solicitante: “André Pasqualini - World Naked Bike Ride”.
Resumindo, estavam me cobrando os custos devido aos transtornos que a Pedalada Pelada causou ao “trânsito” da cidade.
Liguei lá questionando de onde tiraram essa história de que eu sou o responsável pelo passeio? O World Naked Bike Ride é um evento que acontece em mais de 150 cidades ao redor do mundo, não há organizadores, qualquer um pode participar, é como a dia das mães, que ocorre no segundo domingo do mês, como as Bicicletadas, que ocorrem na última sexta feira do mês. O WNBR tem duas sugestões de datas, uma para o Hemisfério Norte, geralmente no sábado mais próximo do meio do mês de junho e no Hemisfério Sul, a data sugerida é no meio do mês de março. Confiram essa informação no site wiki do WNBR.
Já a Pedalada ocorre dentro das leis de cada pais, no Brasil temos todo o direito de pedalar pelas ruas das cidades, quem ainda não sabe, (inclusive alguns técnicos da CET) podem conferir direto na fonte, no Código Brasileiro de Trânsito.
Até aí achava que tudo seria resolvido e que não passaria de um engano, mas dias depois do email, recebo uma carta registrada da CET, com um boleto no valor de R$1.289,25, devido aos custos operacionais que o evento trouxe a cidade, com vencimento para o dia 25 de março de 2009.

Trecho da carta que recebi junto com o boleto abaixo

Hoje protocolei uma carta resposta na CET com a devida devolução do boleto.
Clique aqui para ver a resposta encaminhada a CET
Mas vamos tentar analisar o verdadeiro significado dessa carta.
Primeiro, que para a CET, a bicicleta NÃO é um veículo e sim um estorvo que atrapalha os “verdadeiros” veículos.
Em conversa pelo telefone com a funcionária da CET (falei mais de uma hora com ela), conversei sobre as dificuldades que já enfrentamos e citei a omissão da CET em gerenciar esse tipo de veículo na cidade e a resposta de pronto foi essa:
“Mas não dá para andar de bicicleta na cidade de São Paulo!”
Não dá para andar de bicicleta? Qual é então o nome desse veículo que eu uso todos os dias para me deslocar na cidade? Um Disco Voador? Ou seria um ODNI (Objeto Deslizador Não Identificado)? É essa então a resposta para a omissão da CET com os mais de 300 mil ciclistas que usam a bicicleta diariamente e os mais de 4 milhões que possuem bicicleta na cidade e não a utilizam por medo?
Outra constatação, NADA pode prejudicar a “fluidez” dos veículos motorizados particulares, a não ser os próprios veículos particulares. Fácil constatar, basta ver os exemplos que relaciono abaixo em relação a cada categoria.
Caminhões
Foram “expulsos” da cidade porque atrapalhavam a fluidez dos carros particulares. Com isso muitas transportadoras tiveram que trocar um caminhão por dois VUCs menores para poder continuar abastecendo nossa cidade. Quem não pode foi obrigado a criar turnos noturnos para entregar e receber produtos. Ou seja, por causa dos carros particulares, mais uma vez toda a cidade paga a conta.
Ônibus
Vocês não imaginam a briga interna que rolou na CET para que os corredores de ônibus fossem implantados na cidade de São Paulo, já imaginaram o absurdo que é tirar o sagrado espaço dos carros e deixar só para ônibus e veículos de emergência? Porque não temos um corredor de ônibus na Paulista? Por que assim seria muito mais complicado para o motorista de passeio usar a faixa de ônibus, como faz atualmente.
Outro dia o Milton Jung fez um relato mostrando como a CET lida com um ônibus quebrado no corredor da Rebouças. Ela impede que os ônibus fluam, deixando-os em fila parados no corredor, para que os carros fluam com mais tranqüilidade. Não são os ciclistas apenas os inimigos da CET e sim todo veículo diferente dos carros particulares.
Tanto é que um taxi transportando uma pessoa pode usar os corredores. Agora um Ônibus Fretado, carregando 50 pessoas que tem carros (ou seja, tirando 50 carros das ruas) é proibido. Bela lógica não?
Pedestres
Já atravessaram uma ponte de São Paulo a pé? Sabia que grande parte dos atropelamentos ocorrem nas marginais, justamente nas alças de acesso que não tem passarelas, muito menos faixas de pedestres?
Sabia que no cruzamento da Rua Augusta com a Paulista, o semáforo fica aberto 2 minutos e 12 segundos para os carros, enquanto os pedestres têm que atravessar em 12 segundos?
Sabia que até poucos meses os Agentes da CET não podiam multar quem não dá preferência ao pedestre na faixa? Mesmo agora, depois que passaram a poder multar, sabe quantas multas foram lavradas?
Na maioria das cidades Européias, 75% dos mortos em acidentes de trânsito são Motoristas e Passageiros. Sabe quanto é a mesma proporção em São Paulo? 18%. Mas por quê tamanha diferença? Porque nessas cidades a preferência é sempre pela vida e não pelos motores, mais importante que a fluidez motorizada é a segurança das pessoas. Já em São Paulo entre punir infratores e a fluidez, sabe qual é a escolha? Nosso secretário de transportes Alexandre de Moraes responde.
“Vamos priorizar a mobilidade, ainda mais nos momentos complicados de rush. Nessas horas, a fluidez é mais importante. É melhor o marronzinho coordenar o trânsito do que ficar parado multando."
Mais pensamentos do nosso secretário:
"Acidentes com vítima causam muita lentidão. Quando a pessoa morre, demora para a pista ser liberada. Tem de esperar a perícia chegar, e às vezes isso para todo o trânsito. O impacto de um acidente com morte é o mesmo de um veículo quebrado. Quinze minutos de faixa obstruída provocam 3 quilômetros de congestionamento."
Ciclistas
Aí podemos falar com mais propriedade. Começando com o fato da Bicicleta estar ligada a Secretaria do Verde e não na Secretaria de Transportes. Na CET temos 3 funcionários que cuidam de bicicleta e pedestres contra 4 mil que cuidam da fluidez dos carros. Aliás tem mais gente trabalhando contra a bicicleta do que a favor dela.
Existem mais de 100 km de ciclovias projetadas na cidade e todo projeto cicloviário tem que ter aprovação da CET. Sabe quantos kms de ciclovias temos? Atualmente 6 km em Itaquera, mesmo assim só saiu, pois é uma ciclovia que vai junto ao muro do Metro, não tendo que cruzar nenhuma avenida. Outro fator importante para ela acontecer é porque ela foi “bancada” politicamente pelo governo do Estado, pois se dependesse da CET ela jamais existiria. Ou seja, o estado fez muito mais pela Bicicleta do que a Prefeitura.
Há uma lei de 1995 que obriga todas novas obras viárias, ou reformas de pontes e avenidas, a prever o trafego de ciclistas. Porque será que a CET autoriza uma obra ignorando essa lei? Aliás, quando eles autorizam uma obra, como fizeram recentemente na avenida Olimpíadas que serve de ligação entre as Avenidas Berrini e Faria Lima, simplesmente ignoram o ciclista, desrespeitando a lei, portanto cabe até um questionamento legal.
Pois bem, a CET está buscando na legislação maneiras de impedir de vez o transito de ciclistas em São Paulo, já que é assim vou passar a questionar legalmente todas as aberrações que eles cometem no trânsito. Pois se aceitar essa atitude, logo eles vão começar a mandar a conta para a família de todos os mortos em acidentes de trânsito na cidade.
Ao invés de tentar reduzir o número de mortes de pedestres (mais de 700 por ano), melhorando a segurança deles, para não “prejudicar a fluidez motorizada” é bem capaz que eles passem a cobrar da família os custos do congestionamento em caso de atropelamentos. Será que já mandaram a conta para a família da Marcia, devido ao transtorno que sua morte causou ao tráfego motorizado da região da Paulista?
André Pasqualini
|
 |