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Vidas, esse é o preço da fluidez
19/11/2009
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Todas as terças eu publico um texto na coluna Seu Destak do Jornal Destak de São Paulo. No final da página há links para todas as colunas já publicadas e aqui, as vezes com algumas imagens. |
Os gestores do trânsito imaginam ruas como artérias e carros como sangue. Pedestres e ciclistas são gordura
Na coluna com o título "Diga não à fluidez" (Meu Destak, 20/10), contestei nossos gestores de trânsito, que, para dar a maior vazão aos carros, colocam em risco a vida, principalmente de ciclistas e pedestres. Nossos engenheiros da CET devem imaginar as ruas como grandes artérias; os carros, o sangue que pulsa dentro dos vasos. Já ciclistas e pedestres são gorduras maléficas que prejudicam a circulação, por isso não são prioridade.

No sábado, dia 14, presenciei a triste instalação de mais uma Ghost Bike, bicicleta branca instalada para homenagear os ciclistas mortos no trânsito da cidade. As vítimas desta vez se chamavam Fernando Couto e Antônio Ribeiro, um gari. Ambos morreram em 26 de outubro, quando estavam na calçada e um ônibus perdeu o controle, levando os dois a óbito na hora. A tragédia foi registrada pelas câmeras da polícia e circulou pela internet.
O local fica no fim da av. Robert Kennedy, no largo do Socorro. O fim da avenida é em curva, com um corredor de ônibus no canteiro central. A fluidez do tráfego no local é gerida de tal modo que os carros vindos da Robert Kennedy tenham acesso praticamente direto. Quem tenta atravessar é obrigado a esperar por vários minutos no canteiro central, com veículos bi-articulados passando a 60 km/h a poucos centímetros de quem aguarda na ilha.

Como o local é uma curva, é óbvio que, vez ou outra, um veículo perde o controle e invade a calçada, sacrificando vidas, nesse caso as do Fernando e do Antônio. Detalhe: não há a possibilidade de realizar a travessia de uma vez, já que o demorado semáforo abre em fase para os pedestres, não muito diferente de qualquer outro semáforo de pedestres da cidade. Como resolver? Basta fechar o semáforo de quem vem pela Robert Kennedy quando a av. Guarapiranga está aberta, mas isso, como dizem os técnicos, impactaria a fluidez.

A mãe e os parentesdo Fernando estiveram presentes à instalação da Ghost Bike ; a família e amigos de trabalho do gari Antônio, também. A mãe do Fernando só chorou no local, acho que foi o momento em que teve certeza da perda do filho. Ciclistas escreveram uma frase no chão "Devagar, Vidas", com o objetivo de sensibilizar os motoristas e fazer com que dirijam com mais prudência.

E a CET? Já abriu um chamado para apagar a frase pintada pelos manifestantes. Deve ter medo de os motoristas respeitarem os dizeres, andando com mais prudência e, consequentemente, prejudicando a maldita fluidez. .
André Pasqualini
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