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China,
um caos com uma boa dose de organização
Texto e fotos por Tales
Augusto Cabral . Tales tem 29 anos, é paulistano,
engenheiro, e queria ter mais tempo livre para pedalar
em São Paulo. (www.stoneagescanners.com/terramex)
A
bicicleta é o meio mais comum de transporte na
China, principalmente no leste, onde só há
planícies. As cidades são realmente planas,
por isto é muito bom andar de bicicleta por lá.
Nas cidades onde há metrô, o número
de ciclistas é bem menor. Morei em Tianjin, a
terceira maior cidade da China, onde não há
metrô ainda (está em fase de construção).
E é de lá que fornecerei minhas impressões.
Tianjin possui 10 milhões de pessoas e um mar
de bicicletas. Nas maiores avenidas, existe uma ou duas
faixas exclusivas para bicicletas em cada mão,
separadas da via principal de carros por uma
típica cerca de ferro, bem baixinha. As bicicletas
sempre andam no mesmo sentido que os carros. Nas vias
menores, não existe uma faixa exclusiva para
as bikes, porém a regra é a mesma, elas
ficam à direita dos carros. Nos casos onde é
permitido o estacionamento dos carros nas guias, as
bicicletas são obrigadas a fazer aquele "slalom",
muitas vezes se jogando na frente dos carros que estão
trafegando normalmente.
O
impressionante é que ninguém se machuca
feio. Totózinhos entre carros e bicicletas são
comuns, e mesmo sem gravidade, é um Deus nos
acuda. Ambos são obrigados a pararem exatamente
na posição em que bateram, até
a polícia chegar e registrar a ocorrência.
Quando se trata de um estrangeiro que está no
carro, a coisa piora um pouco. Ávidos por dinheiro,
os sino-mercenários tentam extorquir dinheiro
para não chamar a polícia.
É
impossível falar das bicicletas sem citar o trânsito
caótico de Tianjin. Ninguém respeita ninguém,
e ao contrário do que se pratica na maioria dos
lugares, a preferência nunca é do mais
fraco. Ou seja, numa situação de "confronto"
em mesmo número, um ônibus não pára
para um carro passar, da mesma forma um carro para uma
bike, e assim também uma bike para um pedestre.
O que faz diferença é o volume: 10 bicicletas
juntas conseguem parar um carro, ou pelo menos ir avançando
de pouquinho em pouquinho até que os carros comecem
a trafegar por trás deles, ao invés de
pela frente. É um barato. Esta é a única
maneira de pedestres e bicicletas conseguirem atravessar
as ruas.
Não
há muitos problemas quanto às ultrapassagens
entre bicicletas, pois todas andam na mesma velocidade.
Se você seguir o fluxo, sobrevive na boa. Mas,
se andar sozinho, está fadado a ficar "ilhado"
ao tentar atravessar alguma avenida. Ninguém
pára, ninguém freia, nunca alguém
cede. É muito comum ver carros baterem a 0,5
km/h, pois ninguém cedeu a passagem ao outro.
A
regra dos semáforos também é diferente.
Quando um semáforo está fechado, a interpretação
que deve ser feita é que somente os carros que
pretendiam seguir reto no cruzamento não devem
avançar. As curvas à direita ou esquerda,
em ambos os sentidos, estão liberadas, então
fica um nó no trânsito, e mesmo se há
um semáforo verde para pedestres, ainda assim
os carros vêm à toda e é preciso
tomar cuidado para atravessar. As bicicletas estão
sujeitas às mesmas regras dos carros se não
há semáforo exclusivo de bicicletas, caso
no qual se aplicam as regras de pedestres.
Ninguém
se machuca muito pois as velocidades são baixas,
os carros raramente passam de 60 km/h na cidade. Sei
que algumas coisas que falei podem parecer exagero,
mas não são. Só vendo para crer.
Não há nada organizado no trânsito
da cidade.
Os táxis são muito comuns na China, mas
não são só para pedestres. Alguns
táxis são pequenas kombis onde é
possível entrar com a bicicleta (cabem até
2), e depois que descer continuar o percurso na magrela.
O uso destes táxis se justifica, pois mesmo sendo
todas as ruas planas, alguns chineses pedalam mais de
50 km por dia para chegar no trabalho. No frio (cheguei
a pegar -15o C), não é uma tarefa muito
fácil.
Em
relação às bicicletas em específico,
elas são extremamente simples. A grande maioria
tem pneus finos, não tem marchas, possuem um
cesto na frente para as compras, e as garupas também
possuem cesto ou alguma "trava" para carregar
coisas. A catraca tem um diâmetro menor do que
estamos acostumados, até porque fica menos cansativo
pedalar, já que as velocidades são baixas.
As
bicicletas que possuem algum motor elétrico são
obrigadas a ter placas de identificação,
como os carros. As bikes mais comuns são muito
baratas (para a gente), paguei 50 reais em uma para
a minha esposa. Outras bicicletas mais arrojadas, com
marchas, suspensão e etc, saem por R$ 150,00.
As bicicletas com marchas não têm obrigatoriamente
3 coroas, a minha por exemplo tem apenas 2.
Na
maior parte dos lugares você pode estacionar a
sua bike nas calçadas, junto às milhares
que já estarão por lá. Porém,
em alguns lugares, é preciso pagar uma fortuna
(R$ 0,30) para estacionar a bike. E ai de você
se parar no lugar errado, o “tiozinho” ainda
te dá bronca.
Os chineses praticamente não cuidam das bicicletas,
e qualquer manutenção é corretiva.
Vimos
algumas bicicletas que deveriam estar em museus, de
tão enferrujadas. Provavelmente tinham uns 50
anos ou mais. Um fato bastante curioso é que
não há bicicletarias, e sim “tiozinhos”
em algumas esquinas onde você pára para
encher os pneus ou fazer algum ajuste. Os preços
são irrisórios para a gente, mas os caras
sobrevivem assim. As bicicletas são compradas
em supermercados, normalmente.
Existem muitas bicicletas adaptadas, umas muito bem
sacadas e outras que dão medo. Já vi uma
para um cara sem pernas, que girava uns pedais com a
mão, e já vi também bikes com a
garupa adaptada com uma caixa onde cabiam seis pessoas.
E, apesar de não ser tão comum assim,
existem as bicicletas táxi no melhor estilo "siga
aquele chinesinho" do pica-pau.
Eles
não usam equipamentos de segurança, mas
em compensação é um desfile de
moda; chinesas com luvinhas, capinhas, chapéus,
máscaras, tudo em prol do padrão de beleza
delas que é ter a pele o mais branca possível.
Passear de bike à noite, com a esposa, de mãos
dadas, é muito legal. O fato da cidade ser plana
realmente faz a diferença e não cansa
.
Se você tem amigos ou mora fora do Brasil e quer
mandar seu relato, mande uma mensagem para ciclobr@ciclobr.com.br. |
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